CONVERSAÇÕES SINDICAIS - Vito Gianoti (Jornalista e Escritor CUTista)


E NA ÚLTIMA EDIÇÃO DE "CONVERSAÇÕES SINDICAIS" no destaque especial à Comunicação do SINDSEP no mês de Abril, apresentamos uma entrevista com



VITO GIANOTTI - Escritor, Jornalista integrante da CUT Nacional e Coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação.








EM TEMPO DE DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO...
Qual o papel da comunicação sindical hoje?


1 - Qual é a sua definição para Jornalismo Sindical?

O Jornalismo Sindical tem uma definição que vem de suas características próprias.

A primeira característica é que ele deixa claros quais são seus objetivos. Ou seja, deixa claro que tem lado, que defende uma classe e dentro dela dá especial atenção a um setor, ou seja, cada jornal se dedica prioritariamente a uma categoria específica. Não tem nenhuma postura de falsa neutralidade, de eqüidistância. Mas, é bom ter claro que isto exige muita seriedade, apresentar fatos, dados concretos e não fazer sermões, não contar lorotas ou inventar dados e fatos fantasiosos.

A segunda característica é que o jornal sindical não é vendido em bancas. Ou seja, ele chega, de graça, ao leitor que não está esperando aquele jornal, aquela notícia. O leitor não está louco para ler o jornal do sindicato. Quem está ansioso para que este jornal seja lido é a direção e os jornalistas do sindicato. Deste fato deriva como conseqüência imediata que o jornal sindical deve ser muito atrativo, bonito, chamativo. Deve chamar por sua pauta, por sua cara, por sua linguagem. Sem isso ele irá direto para lixo.

A terceira característica de um jornal sindical é que ele vai nas mãos de trabalhadores que, em sua imensa maioria, não lêem jornal diariamente. A não ser nos sindicatos de profissionais liberais ou de funcionários públicos de alto escalão, o trabalhador, em geral lê muito pouco.

2 - Como você julga o poder de alcance da imprensa sindical?

Durante este período a imprensa sindical teve um papel de imprensa contra-hegemônica na luta contra o neoliberalismo, num momento em que quase desapareceu toda a imprensa sindical.

Quem foi que fez a campanha contra as privatizações na época de ouro do neoliberalismo de FHC? Como foi feita a batalha contra a Reforma da Previdência, sem ser pelos jornais sindicais? Não entro no mérito, aqui, se ganhamos ou não. Mas a imprensa sindical cumpriu o papel da imprensa partidária que não existiu. Qual jornal de esquerda cumpriu este papel?

Na década de 90, houve belas publicações alternativas valiosíssimas, mas com uma tiragem muito restrita, como é o caso da Reportagem, a Caros Amigos, ou o Jornal dos Sem Terra. Todas com uma tiragem pequeníssima, insignificante, num país com, na época 185 milhões de pessoas. E sua periodicidade não permitia de fazer uma verdadeira disputa contra um inimigo que se comunicava todo dia, pelo rádio, pela televisão e por seus inúmeros jornais. 

3 - Quem são os destinatários do Jornalismo sindical?

Os destinatários do Jornalismo Sindical são trabalhadores que em sua maioria tem uma baixa escolaridade. Os dados do MEC são trágicos. Nosso país tem uma média de escolaridade de pouco mais de seis anos. Ou seja, a maioria dos destinatários da imprensa sindical tem 4 ou 5 ou 6 anos de escola. Dados do MEC, de 2002, diziam que no Brasil somente 19% da população tinha terminado o segundo grau. Ou seja, 81% não tinham chegado nem a este patamar.

Este fato determina grandemente toda a realidade da imprensa sindical. Deve determinar o tamanho dos artigos, o formato do jornal, suas características de apresentação e, sobretudo a sua linguagem. Ou seja, fazer jornal para quem quer ler, é uma coisa. Fazer jornal para os engenheiros do Rio de Janeiro é totalmente diferente de fazê-lo para os trabalhadores civis nas Forças Armadas. Fazer jornal para os professores da UFF é totalmente diferente de fazê-lo para quem não compra o jornal nunca e é a clássica vítima da rede Globo ou das suas concorrentes, que são do mesmo naipe, embora inferiores em qualidade técnica e alcance. Uma coisa é fazer um jornal para um jovem conectado à Internet, durante 24 horas por dia. Outra é fazê-lo para um trabalhador que nunca ligou um computador. 

4 - O jornalismo sindical é ideológico. De que maneira, nele convivem ideologia e objetividade?

O jornalismo empresarial é profundamente ideológico. Para mim, o jornalismo da Veja, ou daFolha de S. Paulo, ou do Globo, são totalmente ideológicos. Ou seja, têm lado. O lado da classe dominante hoje no Brasil. Não há nada de mais ideologizado e, conseqüentemente editorializado, do que a Veja. Basta ver como noticiou o 6º Fórum Social Mundial acontecido em Caracas em fim de janeiro de 2006. No número saído imediatamente após o termino do evento que reuniu umas duzentos mil pessoas na capital da Venezuela, a Veja, simplesmente não deu uma notícia. Só colocou um artigo, como um editorial, para atacar o seu maior inimigo do momento, o Hugo Chavez. Um artigo de ideologia purinha, destilada, com todo o ódio que a revista nutre pela esquerda.

Esta revista é um panfleto da direita conservadora do país. Defende sua visão de mundo, escondendo fatos, esquecendo pura e simplesmente, criminalizando os movimentos sociais ao gosto de sua ideologia. Com essas artimanhas os fatos ficam totalmente distorcidos. E ai? A imprensa sindical vai repetir o que a mídia da direita faz?

Por princípio a imprensa sindical tem um lado: o lado dos assalariados, dos desempregados, dos excluídos, do povo que não irá nunca à Daslu ou a Miami. Esse é o lado da esquerda. Mas, nem por isso pode repetir o comportamento da direita. O jornalismo sindical deve dizer claramente qual é o seu lado, mas fazer isso com fatos, dados, entrevistas. Sem isso cairá no discurso vazio, no panfleto, igual aos panfletos que a direita escreve, disfarçados de jornais e revistas luxuosas, vendidas em bancas e enviadas para casa dos assinantes. 

5 - Qual foi o impacto das transformações no mundo do trabalho no jornalismo sindical?

Foi enorme. A passagem do antigo fordismo, de muitas fábricas, á situação de hoje onde, nas grandes empresas reina o sistema japonês, o chamado toyotismo, mudou completamente a realidade do mundo do trabalho. Uma coisa eram os bancos, em 1985, com mais de um milhão de bancários. Outra são os bancos automatizados de hoje, onde, no Brasil inteiro, não chegam a trabalhar 380 mil bancários. O mesmo pode-se dizer de uma Volkwagem que chegou a ter 48 mil trabalhadores, em 1980, e hoje não chega nem à metade. Muitos dos ex-metalúrgicos da Voks simplesmente caíram no trabalho informal, outros caíram na terceirização com perda de antigos direitos. Sua relação com os sindicatos mudou. E com isso a imprensa sindical também mudou. Estas mudanças exigem dos sindicatos uma compreensão do que é transitório e do que é permanente. E o que é permanente é a exploração do trabalho. É a divisão entre os que vivem da venda da sua força produtiva e os que vivem do trabalho alheio. Os que vivem do trabalho e os que vivem da exploração deste trabalho. O desafio da imprensa sindical é mostrar a realidade da exploração e a conseqüente necessidade de luta e reação, nas novas situações de hoje. 

FONTE: www.piratininga.org.br

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